sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Tudo estava ao contrário naquela tarde de verão...Mas foi melhor assim.

 
Era tarde de verão quando ele sentou na cadeira de metal que ficava na frente da mesa e apanhou papel e caneta. Antes, é claro, não podia esquecer de ligar o rádio no volume máximo. Olhando para o vidro da janela percebia que as nuvens brancas em contraste com o céu claro pareciam uma pintura feita por uma criança.
Ainda olhando para o céu, começou a escrever:
"Uma pobre criança, que por ser criança tem o talento de transformar qualquer coisa que faz em algo lindo. E que por ser criança é pobre, pois não conhece nada desse mundo. Ou uma pobre criança que é rica por ser criança e não saber nada desse terrível mundo. "
Não. Não podia continuar a escrever, estava horrível. Um dia lindo como aquele, com o sol brilhando por trás das nuvens e a água azul parada no horizonte, não merecia ser inspiração para a criação de algo tão feio. Era quase uma falta de respeito.
Furioso, ele arrancou a folha do caderno e (amassando-a com a mão esquerda) começou a escrever novamente:
"O que diria o homem se pudesse compreender as ideias da sua própria mente, se sem compreender as ideias das mentes que o cercam são tomados por fúria e inveja? Se pensamentos alheios os fazem matar o que pensamentos sinceros os levariam a fazer? Estou sendo hipócrita, com o fato de que o que os homens pensam dos homens me incomoda tanto. Mas vou continuar, provavelmente algum homem que não conhece seus próprios pensamentos será tomado de fúria ou inveja, quando ler e conhecer as minhas ideias."
Não. Ainda está ruim. Com certeza se o horizonte e o Sol pensassem não estariam mais satisfeitos com esse texto do que com o anterior. Novamente, arrancou a folha e voltou a escrever.

"As tardes já são lindas, o Sol ainda não se pôs, Deus já nos deu tudo e vocês não conseguem sentir a felicidade pulsando em suas veias. De que mais precisamos, dinheiro? O pão está em cima da mesa, mas você não foi comer. Fama? Se a vida fosse uma peça de teatro todos à nossa volta seriam a plateia. Ninguém conseguiu me convencer. O que mais precisamos? Amigos? Todos temos contas no facebook, mas não temos com quem conversar, por que nossos milhares de "amigos" estão ocupados, cuidando de coisas que realmente são importantes para eles. Não consigo entender, o que está acontecendo? Crianças escrevem sobre crianças, e eu, que sou uma criança, escrevo sobre mim."
Dessa vez, desligou o rádio, jogou o caderno dentro da gaveta e levantou-se. Sem dúvida não poderia ser escritor. Não adiantava tentar. Com certeza, a matemática era melhor. Sem complicações, filosofia e pensamentos alheios.
Rapidamente arrastou a cadeira para trás, levantou e foi-se para a sala, onde seus pais jogavam videogame.
 
Tiago L. Flores

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